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51 milhões que precisam ouvir

O atual (des)presidente recebeu pouco mais de 51 milhões de votos. E, por isso, venho registrar aqui um desabafo.

(Se tiver paciência e/ou curiosidade, siga em frente). Sou uma pessoa bastante empática. Por isso, não tenho raiva por quem aqueles que ainda se sentem à vontade para ser um desses 51 milhões. Nem por aqueles que têm tanto orgulho disso que compareceram às urnas vestindo camisas da seleção de futebol. O que sinto, na verdade, é decepção. Mais do que qualquer outra coisa. É o que minha natureza me impele.

Entendo que sejam pessoas comuns, por mais que nos sintamos propensos a julgá-las como monstros. É fácil pensar assim. É cômodo. Mas a vida não nos oferece esse tipo de simplicidade.

Sabe aquela vizinha que te salvou quando você estava doente? Ou aquele desconhecido que te ajudou a carregar um saco de cimento para dentro de casa? Ou qualquer outra pessoa que tenha te ajudado de alguma forma. Pense numa dessas pessoas. Talvez ela tenha chegado lá na urna e teclado 22/confirma. Deixou de ser boa por isso? É realmente fácil julgar isso? O mundo está doente. A verdade é essa. E de uma forma muito complexa!

Não é uma exclusividade brasileira. Lá na Hungria, o presidente deles deu receita para evitar covid: vodca. Na Itália, não bastasse a experiência com Mussolini, alavancaram representantes de extrema direita de volta ao poder. Da Rússia, Putin ameaça descarregar seus silos de mísseis nucleares e invade o país vizinho. Em, 2020, nosso (des)presidente adiou a compra de vacinas. Foi à TV desautorizar seu ministro da saúde e minimizar vergonhosamente o perigo da pandemia. Só liberou recursos quando foi pressionado.

Nunca levou o assunto a sério. Fez campanha para remédios que não são indicados como um tal "tratamento precoce" que não existe. Debochou dos mortos. "Não sou coveiro". "É uma gripezinha", "(comprar vacina?) Só se for na casa da sua mãe!". Imitou uma asfixia por covid. Nada disso nos contaram. Vimos com nossos olhos. Seu descaso e falta de exemplo podem ser facilmente apontados como responsáveis pelo perigo da volta da poliomielite. Genocida, psicopata, miliciano, corrupto, desumano, mau caráter, incompetente e preguiçoso. Todos os predicados que jamais vi reunidos em um só político. E, ainda assim, 51 milhões de pessoas votaram nele. Não aceito de modo algum que tenhamos 51 milhões de pessoas com o mesmíssimo caráter dele. Uma faceta ou outra encontra eco em suas almas, isso é claro. São pessoas. E, como tal, falham. Mesmo assim... São 51 milhões que esquecem o que foi a pandemia de covid e como essa pessoa que ocupa a presidência se portou. Ou criam (ou acreditam) em narrativas mentirosas. Será falta de memória? Então, deixe-me ajudar: Não, ele não tentou fazer nada de bom e foi impedido pelo STF. Isso é uma mentira deslavada. O que ele queria era desarmar nossa única defesa, quando a pandemia nos atingiu: o isolamento. O STF apenas o impediu de mandar milhões para o abate. E ele não botou um tostão do (nosso) dinheiro para ajudar contra a crise que ele sabia que viria. Tinha a chave do cofre com os recursos que precisávamos e aos quais tínhamos direito e o manteve fechado até alguns meses antes da eleição. Não, ele não nos protegeu de efeitos colaterais ao adiar a compra de vacinas. Conversa fiada. Ele apenas mandou mais pessoas para a morte com o adiamento. Não, ele não protege nossa liberdade quando não se vacina ou quando perde mais tempo com essa baboseira de "liberdade acima de tudo" do que pedindo consciência de coletividade às pessoas. Cada pessoa que se recusa a se vacinar só para exercer essa tal liberdade está apenas contribuindo para criar buracos no sistema vacinal, que depende de adesão. Está apenas colocando sua própria família e amigos em risco. Se você ainda acredita nessas mentiras todas... que decepção que sinto. Não raiva. Chegamos ao segundo turno. De uma tal polarização que não é equidistante.

De um lado, um homem que já foi presidente por oito anos. Corrupto ou não, conhecemos suas virtudes e seus defeitos. Ele não matou ninguém. Ele não impôs uma ditadura. Ele saiu ovacionado e respeitado. Do outro, há o responsável pela morte de 685 mil pessoas. Um homem que já disse que quer ser ditador. Uma pessoa que já assumiu sua incapacidade e riu disso. Um ser vil e estúpido, que agride as pessoas e alimenta rancores, destruição e morte. E 51 milhões ainda escolhem essa pessoa.

Que decepção, repito.

Falo agora com você, um dos 51 milhões. Pense bem: que apatia e que ódio são esses que se infiltraram em sua alma? Que sombra é essa que você abraça? Não percebe o desrespeito que sua escolha representa a quem morreu? A quem ainda sofre e sofrerá com as sequelas? A todos e todas profissionais de saúde que deram sangue e vida para salvar pessoas? Não percebe? Não é possível. Em algum canto ainda luminoso de seu espírito, você sabe. Você entende. Agora mesmo, você que talvez tenha chegado ao final deste texto e já esteja preparando uma resposta para mim, que esteja me odiando... pare e pense. Tente lembrar daquelas imagens nos hospitais. Faça um exercício de empatia. Unzinho só. Tente se imaginar sem ar. A sensação de se afogar, sem estar na água. A dor de perder alguém que lhe fosse caro ou cara. Pense. Avalie com carinho se sua participação não é tão vergonhosa quanto já te disseram. Errar é seu direito. Mas não aprender com esse erro? Pessoas perderam a vida para que você pudesse perceber.

Deixe o orgulho de lado. Envergonhe-se. É libertador. Abrace essa vergonha. É o primeiro passo para a redenção. E, humano falho que sou, juro a você que fez parte dos 51 milhões, você precisa dessa redenção.

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