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  • walter tierno

Autor Maldito



Tive contato com o trabalho de Plínio Marcos pouco tempo depois de terminar o colégio. Assisti a uma peça no teatro municipal e fiz a capa de um livro dele. Acho que mal tinha feito 19, mas não tenho certeza. Só sei que era moleque.

Com o próprio Plínio, só tive contato duas vezes:

A primeira, quando fui assistir a essa peça (era o “dois perdidos numa noite suja”). Na ocasião, pedi para ele assinar o livro que eu tinha feito a capa. Tonto, além de não ter dito que era eu o capista, ainda falei baixo e ele escreveu meu nome errado no livro.

A segunda vez, os poucos amigos antigos que tenho vão lembrar. Montei a mesma peça com o grupo amador que eu participava. Eu fazia o Paco e o Manogon fazia o Tonho.

Inocente, telefonei para o Plínio Marcos para convidar a assistir e também para dizer que a montagem não tinha fim lucrativo. Não cobrávamos ingresso.

Tomei um esporro.

O cara não quis nem saber se era amador ou não. Foda-se! Quem eu pensava que era para pegar o trabalho dos outros e montar assim e mais uma caralhada de coisas…

Fiquei puto. Desmontei tudo. Só tínhamos feito duas apresentações. E fiquei puto por um bom tempo, dizia que o cara era um canalha, que não precisava ter agido daquele jeito, e coisa e tal…

Hoje, com o benefício do tempo e do amadurecimento, já consigo avaliar com distanciamento todo esse episódio.

Em primeiro lugar, acho importante deixar claro que eu era um moleque. Talvez, você que tenha entre seus 18 e 20, como eu, naquela época, considere o jeito como estou dizendo isso um insulto. Acredite, você pensará muito diferente sobre suas certezas de hoje daqui a vinte anos. Se não pensar, algo não está certo…

Voltando:

Como bom moleque, eu não tinha paciência e percepção suficientes para entender a reação do cara. Hoje, já consigo encarar o fato de que meu emputecimento com ele foi apenas fruto de orgulho ferido e ego arranhado. Não foi qualquer tipo de senso de justiça.

Ele poderia ter reagido de uma forma diferente? Ter dito “Ok, fico feliz, vou ai assistir…” Claro.

E poderia ter reagido da forma como reagiu? Mandando eu parar com tudo, dando um puta esporro? Claro que sim!

E hoje eu tenho maturidade suficiente para pensar naquilo tudo e dizer: “tudo bem, o cara tinha razão. Eu é que projetei expectativas infantis.”

Eu não precisaria contar essa história a vocês. Ela não tem qualquer relevância, a verdade é essa. Apenas senti necessidade de assumi-la. Talvez, compartilhar um exemplo de como nos transformamos durante nossa vida.

Toda vez que encaro alguma merda que fiz ou disse de frente, encarando o boçal que fui e admitindo isso em voz alta (ou na tl de uma rede social), sinto muita paz. Um pouco de vergonha, no início, claro, mas logo passa.

Encarar minha idiotice tem sido um exercício muito proveitoso. Recomendo.

Estou lendo uma biografia de Plínio Marcos. E vou reler suas obras. A verdade é que não importa o que o tonto do Walter de vinte anos atrás tenha dito ou pensado, no calor do orgulho (justamente) ferido. Plínio Marcos foi um dos grandes dramaturgos deste país. Merece ser conhecido. Gostaria muito de fazer novamente uma capa para um livro dele. Sentiria que estaria conseguindo dizer pra valer: “Cara, você me sacaneou quando eu era moleque. Mas eu mereci.” Provavelmente ele nem daria bola ou mandaria eu ir à merda. Seria divertido.

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