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  • walter tierno

O cavalinho pelado

O bazar tem o objetivo de levantar fundos para uma organização especializada em resgatar gatos abandonados e encontrar lares adotivos. Colocam à venda todo tipo de doação. Roupas, calçados, brinquedos, bijouterias. Tinha até uma TV de tubo de 14 polegadas. Tudo a cinco reais.

Também abrem espaço para pequenos empreendedores.

Estive lá vendendo livros e canecas. Minha filha fazia companhia.

Quando abriram as portas, um amontoado de gente correu para dentro, na direção do estoque de usados. Alguns procuravam produtos para revender. Outros, para usar. Algumas crianças viam a oportunidade de ganhar algum novo brinquedo. Havia uma caixa desses. Todos velhos para quem os tinha doado. Novos para quem nada tinha.

Uma menina fuçou a caixa e escolheu um cavalinho. Todo pelado, o rabo trançado. Na certa, quando novo, tinha outra tonalidade, acessórios, quem sabe, uma crina. Agarrou-se a ele com determinação. Não sei se por paixão ou por medo de perder o tesouro. Foi atrás da mãe, para mostrar sua escolha. Não vi como foi sua negociação para incluir o cavalinho no monte que a mãe já havia juntado. Roupas, a maioria.

A mãe, a filha e o cavalinho se perderam para mim durante o dia.

Quando o bazar terminou e as voluntárias da ONG juntaram o que sobrou, vi uma delas depositar o cavalinho pelado de volta à caixa de brinquedos.

A negociação com a mãe não deu muito certo, por mais agarrada que a menina estivesse. Talvez a importância do cavalinho tenha se dissipado frente a praticidade das verdadeiras necessidades da família. Não sei qual foi a reação da menina, quando isso aconteceu. Será que chorou? Lutou? Aceitou, triste, mas resignada? Não sei.

Ficou marcada em minha memória sua busca rápida, seu encontro, o abraço com que envolveu o cavalinho pelado e velho. E tento, em vão, esquecer que foram separados por sei lá que necessidade. Uma necessidade que, mesmo desconhecendo, tenho a certeza de que nenhuma criança deveria ter.



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