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  • walter tierno

O Vazio

Colocaram um terraplanista na frente de um físico para debaterem. E filmaram.

O primeiro perguntou: Se a Terra gira, como a água dos oceanos não sai voando pelo espaço?

O físico ficou vários segundos embasbacado. Foi pego de surpresa. Provavelmente, não esperava esse nível de debate. Ao mesmo tempo em que admirava a profunda falta de lógica da pessoa à sua frente, tentava concatenar uma resposta entendível, como se precisasse encontrar um novo dialeto.

Não é fácil discutir com o vazio enquanto encara sua imensidão.

Nesse meio tempo, o terraplanista já enchia o peito, orgulhoso de sua vitória argumentativa. Uma câmera registrava a consternação silenciosa no olhar do físico, emudecido por uma mistura de tristeza pela ignorância monumental à sua frente e um bocadinho de raiva. Para muitos que assistiam à cena, também a vitória poderia parecer estar do lado plano da questão.

É o silêncio da consternação. Algo que tem acontecido com uma frequência considerável.

Somos tomados por um tipo de confusão, tamanha a falta de lógica, ética e empatia de quem lança proposições absurdas. A retórica da ignorância extrema, que se torna uma fantasia emudecedora. É o teatro do absurdo roubado dos palcos e colocado a serviço do obscurantismo.

Por isso demoramos tanto a responder quando alguém diz que se só os ricos compram livros e que por isso é uma boa ideia aumentar impostos sobre eles.

Por isso demoramos a responder quando alguém diz que uma pandemia mortal não passa de doença à toa, já que ele mesmo não sofrerá consequências maiores, por ter histórico de atleta.

Por isso demoramos a responder quando alguém diz que refrigerantes são feitos de fetos.

Por isso demoramos a responder quando uma pessoa homenageia um torturador num lugar onde se deveria celebrar o bem comum e a democracia.

Por isso demoramos a perceber o preço dessa ignorância, essa falta de lógica, ética e empatia.

Um preço alto. Pago em vidas.


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