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  • walter tierno

Primeiro capítulo

Olá, pessoas. O post de hoje é comprido, porque é, na verdade, o primeiro capítulo do meu próximo livro. O título provisório é “Tatuagem no Pé”.

A sinopse é a seguinte:

Artur é um jovem rico, faixa preta em taekwondo, superficial, preconceituoso e egoísta. Ele não tem respeito pelos sentimentos alheios, principalmente das mulheres. Mas sua vida de prazeres e privilégios sofre um golpe quando perde as pernas em um acidente de carro. Para ajudá-lo a se recuperar e a se preparar para as próteses, sua mãe contrata a fisioterapeuta Lúcia.

Por toda sua vida, Lúcia sofreu o preconceito que persegue os portadores de vitiligo. Mas sua mãe sempre esteve presente para apoiá-lo e forçá-la a enfrentar os obstáculos e seguir em frente. De temperamento doce, porém decidido, Lúcia tem uma consciência peculiar e lúcida sobre o mundo.

Lúcia e Artur, juntos, descobrirão algumas das infinitas facetas do amor e entre conquistas, tragédias, medos e perdas, verão suas vidas serem completa e irremediavelmente transformadas.

A história é contada através dos pontos-de-vista dos protagonistas, Lúcia e Artur. No primeiro capítulo, o leitor terá uma ideia de como é a personalidade de Artur e já terá um vislumbre das mudanças que o aguardam. Espero que gostem.

Só avisando que o livro ainda não passou por copidesque, então relevem os errinhos…

Boa leitura:

1- Artur

Sexta-feira, 4 de abril

Minhas coxas tremem. São os músculos que trincam. Uma corrente elétrica que vem da virilha, sobe pelo estômago e descarrega na nuca. Ninguém percebe. Não dou pinta. Nunca dou. Só espero, firme.

Lá vem o trouxa do Sérgio. Aos pulinhos, como se soubesse o que está fazendo. Braços na defesa, punhos à altura do queixo. Tudo muito mecânico, sem graça pra cacete. Está na cara que ele não tem as manhas. É só mais um paga-pau que treina pra se sentir fodão. Caras assim fazem muita merda, a verdade é essa. Só por isso, ele já mereceria muita porrada.

Eu continuo parado. Pareço plantado no chão, mas não estou. Os pés estão leves. Os joelhos soltos, tudo pronto e esperando. Ele chega mais perto, a perna direita nervosa. Entrega o golpe. O filho da puta vai repetir o mesmo que me acertou, não faz nem um minuto. É muito burro ou muito corno. Naquela hora ele teve sorte, mas agora, não.

Eu salto, giro e meu golpe sai primeiro.

Sai, não. Explode!

A perna direita risca o ar. O resto do corpo acompanha. Meu pé parece ter vida própria. Viaja, leva o resto do corpo junto. Tudo em sintonia. Diferente dele, eu tenho as manhas. É tudo perfeito e inesperado. O cara fica sem rumo, não sabe se ataca ou se defende, se levanta a perna ou a mão. Eu não disse que é um paga-pau? No fim, não faz porra nenhuma e meu pé chapa direitinho onde eu quero: Na cara!

O barulho é alto. O chute é forte. O capacete absorve a maior parte do impacto, mas não todo. Não quando o golpe é tão perfeito, potente. E meu chute é potente pra caralho! Ele desaba. Alguém solta um “Uunh”, como se sentisse a pancada no próprio rosto. O Celso exclama um “Nuossa!” O Sérgio mesmo não grita, não fala, não urra, nem geme. O único som que sai da sua cara é um estampido aguado, mas esse foi provocado pelo meu pé. Também não faz mais nada além de cair de bunda no tatame, com cara de paspalho. Não baixo a guarda. Assim que o cérebro dele voltar a funcionar, vai ficar muito puto e querer vir pra cima.

Não dá outra. Mas um instrutor segura. Eu visto cara de inocente, levanto os braços e peço perdão. A turma do “deixa disso” interfere, ele se acalma e aceita minhas desculpas. Não sei dizer se acredita que são sinceras ou se percebeu que estou cagando para o que ele pensa. Não importa. O recado está dado: Não se meta comigo.

O mestre aparece. Passa um sermão. Diz que era um exercício, não uma luta, que eu tenho mais experiência e treino, e que não tinha nada que aplicar aquele golpe. Blá, blá, blá… Eu escuto de cabeça baixa, expressão humilde. Bater boca com o mestre? Ganho o quê com isso? Ele praticamente está jogando uma verdade na cara do Sérgio: Que sou melhor e que o cara é tão bosta, que eu tenho que pegar leve com ele. Porra, desse jeito me facilita pra cacete aceitar a bronca e ainda repetir uns “desculpe”, só para reforçar.

No fim, a paz reina. E eu ganho.

Mas nada disso está acontecendo agora. Não estou na academia. Não estou sobre o tatame. Não estou nem em pé. É só uma lembrança.

Só sobrou isso, mesmo. Lembrança.

Estou fodido! Muito fodido!

Não estou lá. Estou aqui. Mas o aqui é uma merda, então prefiro a lembrança.

Agarro ela. Fecho os olhos e agarro ela.

Estou na academia. Derrubei o Sérgio.

Um golpe só. Não é pra menos. Faço taekwondo desde que tinha 12 anos. Na sala de casa, tem uma prateleira forrada com quinze medalhas, três troféus, não sei quantas faixas e badulaques. Não é preciso ser gênio para perceber que eu levo essa porra a sério. Aí, o idiota vem, durante um treino que era pra ser leve, e quase me fode a perna. E se tivesse conseguido? Faltam só dois meses para o campeonato estadual. Ele tem que saber que não vou deixar barato. Se foi por acidente, é uma anta. Se foi de propósito, é um filho da puta. Para qualquer alternativa, pé na cara foi até pouco.

No vestiário, repito o pedido de desculpas. Ele diz que está tudo bem. Então, abro meu sorrisão amigável e digo que lhe fiz um favor, porque o inchaço na bochecha o deixou mais bonito. Um tapinha no ombro, pra deixar claro que estou só brincando. Ele dá uma risada amarela.

Abro meu armário e apanho minha mochila. Acho o iPhone no bolso lateral. Confiro a hora. Seis e vinte. Merda! Perdi noção da hora. Não dá tempo para fazer muita coisa. Tiro e guardo o equipamento de proteção e o dobok, e começo a me vestir. Celso repara, quando volta do chuveiro:

– Não vai tomar banho, não, porcão?

– Não dá tempo – respondo. – Tenho que pegar a mina daqui meia hora. Tomo banho quando chegar no apê.

– Que mina?

– Uma lá da facul. Faz jornalismo.

– É a Li?

– Que Li?

– Lívia, aquela loirinha. Você tava com ela aquele sábado, quando a gente se esbarrou na hamburgueria.

– Não, porra. Essa já era. A fila anda, meu!

– Já? Mas ela era gostosinha.

– Era, não. É. Tá livre e carente. Quer o telefone?

– Nem. Vê se tenho cara de quem pega sopa de chegado.

– Ô, se tem!

Mentira. Celso é muito gente boa. Bonitão, mais alto que eu e com mais lábia. Pra ele, não tem seca. Não precisa mesmo pegar sopa. Se bem que eu acho que ele chegou a considerar a oferta. A Lívia é mesmo bem gostosinha. Não faz diferença, porque eu não daria o número certo. Até parece que eu entregaria o ouro assim, fácil. A fila andou, mas Lívia não saiu do time. Está na reserva. Ainda rola mais umas duas trepadas, pelo menos. Mas não se o Celso pegar. Vai que ela cisma de se apaixonar pelo cara, o que não é difícil. É uma mania de merda que as minas têm e o Celso gosta de provocar isso. Aí, fecham as portas da alegria e fazem um cu doce desgraçado. É uma merda.

Despeço da galera. O Tiago me puxa para perto e cochicha um “parabéns”. Diz que também já levou um tranco “sem querer” do Sérgio e que fiz bem de acertar a cara do sujeito. Respondo com uma piscada.

Saio quase correndo. O sol ainda tá forte. Assim, fica fácil perder noção da hora. Porra de horário de verão! Boto o ar do Civic no máximo, pra me fazer parar de suar. Estou suando muito, ultimamente. Preciso ver isso. Será que é com dermatologista? Mamãe deve saber. Ela manja de todas essas paradas. Já operou coisa que eu nem sabia que existia no corpo. Já falei para ela dar uma maneirada:

– Desse jeito, a senhora vai virar o Robocop.

Até que ela levou na boa:

– Qual dos dois Robocops? O antigo ou o novo?

Eu ri, porque sabia que ela não tinha assistido a nenhum deles. Respondi:

– Vai ficar como o Robocop Gay, dos Mamonas Assassinas.

Ela estranhou:

– Como é que você lembra dessa banda? Você tinha quantos anos quando eles morreram? Uns cinco?

– Seis – corrigi.

E não lembro tanto assim. Mas internet serve pra quê? Pra ter nostalgia de coisa que a gente nem viveu. E fuçar pornografia.

Meto o pé no acelerador. O motor dois ponto zero não reclama, só ruge e acelera. Nem dá trela pro ar condicionado.

Eu não devia fazer isso. Dirigir tão rápido. Sem cinto. É por isso que…

Não! O agora é uma merda.

Fico na memória. Ela é boa.

Chego na frente da facul quinze minutos atrasado. A aula já começou. Pelas janelas, dá para ver as salas cheias, todo mundo sentadinho, de cara virada pra lousa, prestando atenção. Bando de paunocu. Sexta-feira é feita pra ter presença mínima, não pra ficar pescando na aula, enquanto a galera enche a cara nos bares em volta. Os caras que administram essa porra já estão ligados nisso. Tanto que, desde o primeiro ano, toda aula bunda cai na sexta. Hoje, as minhas são de Marketing Político e Pesquisa de Mercado. Não sei dizer qual tem o professor mais mala. De pesquisa é um velho que morreu e esqueceu de deitar. A última vez que trabalhou foi antes do regime militar. A de Marketing é uma gordinha com cara de sapo, que fala devagar pra caralho. Ficam duas horas falando merda para, no fim, indicar um texto que você só tem que dar umas duas lidas e a prova está garantida. Dispenso.

As aulas dela eu não sei, mas é óbvio que dispensou, também. Está na porta, me esperando. Blusa branca de alcinha, minissaia e bota de cano curto. Cabelo preto, liso, na altura do queixo. Uma delícia. Não desço do carro. Só aceno e abro a porta. Ela pula pra dentro, sorrindo. A minissaia vai parar quase na virilha, uns coxões branquelos, lisinhos. Aperto um deles enquanto beijo seu rosto. Ela não reclama da mão, então eu deixo onde está. A boca é linda, mas tá com batom demais. Comenta sobre o meu atraso com um sorriso, já perdoando. É meio arriscado, mas pode ser uma boa estratégia chegar atrasado a um encontro. Pela reação, já dá pra sacar se ela está ou não a fim de dar.

Esta está muito a fim.

Pego a Radial em direção ao Centro.

– Nossa, o trânsito tá bom, né? – ela comenta.

– A essa hora, a galera está voltando pra casa, por isso que a pista pro Centro fica livre e a que vai pro bairro fica fodida – explico o óbvio e acabo parecendo um idiota. Claro que ela sabe por que o trânsito está livre. Falou por falar. Foi uma dessas vezes em que a gente tenta embarcar no papo furado da mina e acaba falando merda.

Mas a verdade é que, se ela percebeu minha mancada, deixou para lá.

Beleza! Nenhum dos dois está atrás de conversinha digna de prêmio Nobel. Só estamos cumprindo tabela: Ela, fazendo cuzinho doce, para não parecer muito piranha. Eu, pagando jantar e fingindo que tenho respeito e que acredito que ela não é piranha.

Falamos sobre a administração da faculdade e o preço da mensalidade. Assuntos que não estão dividindo muitas opiniões. Quase todo mundo concorda que está tudo uma bosta, então não tem perigo de rolar discussão entre a gente. Só reclamação de um lado e concordância de outro. Lógico que não deixo seguir muito, para não correr risco. Vai que ela fica séria e começa a falar de eleição? Papo empaca-foda, hoje em dia. Melhor não. Então puxo conversa sobre música. Ela curte MPB e rock indie. Acho um saco, mas não digo. Pergunto o que está rolando no mercado. Ela vai listando e eu vou ignorando. Sem dar bandeira.

Vamos para o restaurante de sempre. Sempre, pra mim, não pra ela. Praticamente, bato cartão. O garçom, acostumado, dá um sorrisinho de cúmplice. Traz uma dose de uísque pra mim e uma taça de vinho para ela. Engulo a parada e faço cara de paisagem. É difícil reprimir a careta. Odeio essa porra de bebida. Mas papai diz que homem que quer honrar as calças bebe uísque.

– Ninguém nasce gostando – ele me disse, quando experimentei a primeira vez. – É uma coisa que se aprende, com a prática. Anda, toma outro gole. Isso. E para de fazer essa cara de veadinho!

Eu ainda estou tentando aprender a gostar, mas é mais difícil do que ele faz parecer. Tenho uma garrafa reservada no restaurante, meu nome marcado numa etiqueta, colada em cima do rótulo. Já passei da metade e nada de gostar dessa bosta.

A mina vai traçando o vinho dela devagar. Um golinho de cada vez, quando não está falando. E como fala, a desgraçada! Agora, conta um diálogo que teve com uma professora, enquanto me esperava lá na porta da facul. Em algum momento, imita a professora, com uma voz aguda, ardida:

– “Olha, Cris, as escolhas que você faz são responsabilidade sua.”

Meu cérebro dá um clique. Tem alguma informação importante aí.

Eu pergunto:

– Pra quem ela disse isso?

– Pra mim. Ela disse: “Cris, as escolhas que você faz são responsabilidade sua”.

Cris! O nome dela é Cris. Porra! Eu poderia jurar que era Kátia. De onde tirei esse nome? Não lembro de ter comido nenhuma Kátia, ultimamente. Foda-se. Ainda bem que não tive que dizer seu nome até agora.

Mas será Cris e o que mais? Cristina ou Cristiane?

A vontade de rir vem, sem aviso. Seguro o mais que dá, mas um pouquinho escapa. Ela acha que estou rindo da imitação que fez da tal professora que eu nem conheço.

A Cris demora pra decidir o que vai comer, não porque esteja escolhendo, mas porque perde tempo contando uma história atrás da outra. Não faço questão de prestar atenção. Finalmente, diz que gosta de nhoque. Levanto o braço e chamo o garçom. Ela também diz que gosta de gibis. Porra, gibis? O garçom se aproxima com um bloquinho na mão e uma caneta toda fodida. Isso é meio chato aqui, o dono é antiquado, não modernizou o sistema. Poderia, pelo menos, dar umas canetas menos bosta pros caras. Depois que passo o pedido, a Cris explica que não estava falando sobre gibis de super-heróis, nem infantis, que ela considera tudo uma merda. Fala de uns independentes, autorais, que pouca gente conhece, e eu paro de tentar entender. Fala, fala… Fala um monte, mas não sei dizer o quê. De todos os detalhes sobre ela que merecem atenção, a tagarelice é o que menos me atrai. Só concordo e peço para ela falar mais sobre… Seja lá qual for a merda que está falando agora. Enquanto isso, devoro um contra-filé. Puta fome. Ela mal toca no Nhoque dela. Mas de golinho em golinho, já secou meia garrafa do vinho.

Sinto o gosto do filé. Estava tão bom. Mal-passado, sangrento, do jeito que eu gosto. Aqui, só tem patê de mandioca.

Não!

Fica na memória, porra!

Estou na segunda dose de uísque quando ela dá uma pausa no blá, blá, blá e pede para eu falar alguma coisa sobre mim. Mania besta de mulher. Adoram falar sobre elas e acham que homens também curtem. Mas sou prevenido. Tenho um pacotão ensaiado. Falo um pouco sobre minha admiração pelas artes marciais, dando ênfase para o lance de disciplina, filosofia, até a merda do “saber lutar para não ter que lutar”.

Ela pergunta o que curto escutar e jogo que escuto de tudo um pouco, menos sertanejo. Resposta manjada pra caralho, mas que é verdade.

– O Death From Above 1979 tá para lançar um single novo – eu comento.

– É, eu vi um post – ela completa, levantando as sobrancelhas. Fica surpresa por eu mencionar a banda. Pelo visto, ela conhece.

Minas como essa Cris se ligam em música alternativa, daquele tipo que só barbudo de camisa xadrez, baladeiro da rua Augusta ouve. Melhor eu mudar de assunto. Galera acha que papo empata-foda é só política, religião e futebol. Pois eu já perdi metida por causa de papo de música. Foi no ano passado, neste restaurante mesmo. Caí na besteira de dizer que curtia Emnem.  A mina se transformou, ficou muito puta, me chamou de misógino, levantou e foi embora. Assim, sem mais nem menos. Uma semana depois, ela me procurou para pedir desculpas. Daquele jeitinho que dá pra se ligar que ela se arrependeu mesmo é de não ter deixado rolar a trepada. Só de raiva, dispensei. Mandei ela enfiar a desculpa dela no rabo.

Mas aprendi a lição: Quanto menos você se expõe ou opina, mais chance tem de catar a mina.

Para arrematar com a Cris, falo sobre meu sonho quase impossível de ser cineasta. Essa última parte é uma puta mentira, mas as meninas costumam pagar um pau. Não é diferente com ela. Diz que adora filme. Fala os nomes de uns diretores europeus – um, pelo nome, só pode ser italiano – e dois com nome árabe. Finjo que conheço e uso a mesma estratégia da música. Solto alguma notícia sobre cinema que vi na internet e corto o assunto em seguida. Só que, desta vez, aproveito a deixa para convidá-la a conhecer meu apartamento e assistir alguma coisa.

– Tenho uma coleção – digo. E é uma puta mentira. Uns dez filmes em bluray, no máximo, se não emprestei nenhum. Tudo filme de ação. Acho que tem um pornô. Mas não importa, a gente não vai assistir porra nenhuma.

– Onde é? – ela pergunta, com aquele olhar de “me come”.

Ela nem faz o cu-doce básico. Prefiro assim. Por baixo da mesa, roça o pé na minha canela. Sobe até a coxa. Chega ao pau. Peço a conta. A voz sai esquisita.

O prédio não fica tão perto, mas o trânsito está livre na hora que a gente sai do restaurante. Nem quinze minutos de carro. Meto o pé no acelerador e torço para não ser pego por nenhum radar. Tenho que ser esperto, agora. O tempo entre a mesa e a cama não pode ser grande, pra mina não ter tempo de pensar melhor e desistir, mas também não pode ser pequeno demais, porque tem quer rolar uma expectativa.

Sigo pela Radial até a entrada para a Salim e pego o desvio para a Celso, até a biblioteca. Entro na rua lateral e chego na Melo Peixoto, onde fica o prédio. Não é a parte mais nobre do Tatuapé, mas acho que ela está pouco se fodendo pra isso. Eu sei que estou.

Quando passo pela guarita, assim como o garçom, o porteiro também me dá um sorrisinho de cúmplice. Acho que o nome dele é Zé, mas não tenho certeza. Sempre chamei assim e ele nunca reclamou.

No elevador, tasco um beijo. Sua boca tem gosto de vinho. O batom já tinha ficado no guardanapo e no copo, lá no restaurante. Aproveito e dou um apertão na bunda. É grande e durinha. Ela geme e sorri.

Tá no ponto!

Entramos. Faz umas duas semanas que não venho aqui.

Duas semanas?

Só agora me dou conta de que estava na seca. Duas semanas sem pegar mulher?

Não pode!

Não posso pensar nem em quantas vou deixar de comer, agora.

Porra!

Fica na memória!

Papai comprou este apartamento na época em que a gente morou lá na Anália Franco. Ele dizia que era para “fazer investimento”, mas nunca alugou nem vendeu a bagaça. Está na cara que foi só pra montar “abatedouro”. Mamãe deve ter percebido e se emputecido, mas ficou na dela. Não por muito tempo, claro. Quando eu entrei na facul, ela já foi pressionando até convencer o velho a passar o mocó pro meu nome.

– É pra ele ter um canto perto da faculdade – ela argumentava. – Você não faz nada com o imóvel, mesmo. Já é alguma coisa que pode passar para o seu filho. Ele está virando adulto, caso você ainda não tenha percebido.

Papai acabou aceitando, mas não foi de boa. Ficou puto da vida. Tinha comprado antes da bolha imobiliária e pagado uma miséria. Hoje, está valendo umas cinco vezes mais. Quando me passou a escritura, já foi avisando:

– Cuida bem desse apartamento, porque ele já é parte da sua herança. Eu vou até fazer testamento para garantir que a partilha entre você e sua irmã seja justa.

Até que cuido bem do apê. Pago pra irmã da Durvalina vir limpar uma vez a cada duas semanas. Não precisa mais que isso. De vez em quando, dá um barato e eu passo uns dias aqui. Geralmente, só uso pra comer a mulherada, mesmo.

– Vou ao banheiro, tá bom? – A Cris anuncia. Nenhuma surpresa. É a primeira coisa que toda mulher faz antes do abate. Dá uma geral pra não fazer feio.

Indico. Ela me dá um selinho antes de se fechar no banheiro. Enquanto se ajeita, eu vou para o quarto.

Desabo na cama, que reclama com um estalo. Mas ela aguenta, é forte. Madeira pura. Papai comprou em Embu, junto com o criado mudo. Confiro a gaveta: Cheio de camisinha. O resto do quarto é bem simples. Como todo o apartamento. Não entendo de decoração, então, pra mim, tá bom. Mamãe diz que é funcional, mas precisa reformar geral. Papai já falou que não quer nem saber:

– Na hora em que passei a escritura, o problema foi junto. É do Artur.

Pra mim, não tem problema. Está uma maravilha. O que importa é que o colchão é gostoso, o sofá, confortável e a TV, grande. Banheiro só precisa ser limpo, não entupir a privada e ter bastante água saindo do chuveiro e da torneira. A cozinha só precisa ter copo, prato e talher, pra comer pizza e beber cerveja. O resto, que se foda.

Quando a Cris sai do banheiro, me acha no quarto, deitadão, sem camisa. Ela fica na beirada, em pé, me olhando com um sorriso que é pura safadeza. Não fala nada, só tira a blusa. O sutiã é vermelho. Uma tatuagem tribal embaixo do umbigo.

Tatuagem é covardia. Tenho um tesão foda por mulher com tatuagem. Desde que seja sem exagero. Nada daquelas mulheres que parecem um gibi, com desenho até no rabo.

– Vira – eu peço.

Ela dá uma risadinha e obedece. Gira devagar, provocando. Abaixa o zíper da saia e deixa cair. Coloca as mãos na nuca e balança o quadril bem devagar. A calcinha é cavadaça, também vermelha.

Caralho! E que bundão! Ganhei na loteria. E ela cala a boca quando precisa. Minha ereção até lateja.

Reconheço que essa mina é um pouco difícil de entender. Ela se veste como uma patricinha ninfomaníaca, mas tem uns papos de intelectualóide chata.

Levanto e vou até ela. Dou a volta e ficamos de frente um para o outro. Sugamos a boca um do outro e nossas línguas ficam numa esfregação molhada e quente. Com uma das mãos, pego seu pescoço. Com a outra, a bunda. Roço o pau em sua virilha. Ela dá uma gemidinha de aprovação. Sem destravar o beijo, abre minha calça e puxa meu pau pra fora.

É nessa hora que a maioria dos caras se ferra.

Não que se ferrem realmente. A partir desse ponto, para não comer a mina, só fazendo alguma merda muito grande. Mas eles deixam de aproveitar todo o potencial da coisa. Vão com muita sede. Empurram a cabeça da mina pra ganhar um boquete. Depois, já vão enfiando, gozam nas três primeiras estocadas e ficam só no papai-mamãe.

A Matilda me ensinou a ser mais esperto que isso. Ela me ensinou muitas coisas, na verdade. Era a babá da minha irmã. Tirou meu cabaço quando eu tinha treze anos. Ainda tenho saudades daquela putona.

Essa aqui parece fácil, mas não é bem assim. Se eu não souber levar, acabo ficando no papai-mamãe, também. Fazendo direitinho, ela vai me deixar fazer tudo que eu quiser. Se bobear, rola até por trás.

Agarro sua bunda e a levanto. Jogo na cama. Ela ri. Eu me posiciono. Tem surpresa e excitação arregalando seus olhos. Tiro a calcinha dela devagar, passando os dedos por todo o caminho até os pés. Meto a cara entre suas pernas. Está molhada pra caramba.

Ela é limpinha e tem um gosto suave, meio acre. Só uma faixa de pelos aparadinhos, o resto tudo depilado. Se bobear, à cera, mesmo. Chupo até fazê-la gozar. Nem demora tanto assim. Tenho as manhas. Também aprendi isso com a Matilda, professora exigente, quente, que não tinha essas frescuras todas de depilar e aparar pelo e me dava uma canseira do caralho.

A Cris ainda está arfando quando travo outro beijo, para fazê-la sentir o próprio gosto.

Ela também me chupa antes de me ajudar a colocar a camisinha. Também tem as manhas. Preciso me segurar para não gozar. Não está na hora.

Como a safada em tudo quanto é posição. De lado, por baixo, por cima, de quatro.

Eu não falo que os caras perdem a oportunidade quando são muito afobados? É só saber levar. Só porque fiz ela gozar primeiro, fui carinhoso, soube segurar a onda, rolou até por trás. Só gozei duas vezes. Poderia até ser mais, mas, porra! Eu vim do treino. Não sou de ferro.

Deixo ela na cama, largada e contente, e vou pro banheiro, mijar. Se estou ou não fedendo, não faz diferença agora. Basta olhar o sorrisão de bem-comida dela. Até penso em tomar banho, mas estou cansado pra caralho. Volto pra cama e deito do jeito que estou. Peladão, mesmo. Ela me dá um beijinho delicado, olhar apaixonado, e também vai para o banheiro.

Opa! Alerta!

Beijinho delicado já é uma merda. Olhar apaixonado, então… Fodeu de vez!

Preciso dar um jeito de me livrar dela. Aposto que está pensando que estamos namorando ou alguma merda desse tipo.

Tento esperar acordado até ela sair do banheiro, mas não consigo. Devo estar mesmo muito cansado. Mas o sono é bom, sem sonhos, sem pesadelos.

Agora, não. O sono não tem mais gosto de descanso, só de sedativo.

É uma fuga.

Fuga para lugar nenhum.

Acordo com o braço dormente. A cabeça dela em cima.

Perfeito!

Uma conferida rápida no relógio. Três da manhã. Cedo demais pra levantar. Talvez, tarde demais pra me livrar da mina.

Mesmo assim…

Puxo o braço com tudo e ela acorda, assustada.

– Que foi? – meio sussurra, meio pigarreia.

– Porra! Dormiu. – E mostro o braço, como se o meu incômodo fosse visível.

Ela demora uns segundos pra organizar o raciocínio.

– Nossa… – esfrega os olhos. – E precisava me acordar desse jeito só por causa disso?

– Incomoda pra caralho!

Tentando soar reconciliadora:

– Mas que coisa. Também não é pra tanto. Calma. Vem cá, deixa eu fazer uma massagem.

Eu, afastando as mãos dela:

– Não. Deixa assim.

– Ai! Não precisa ser grosso.

– Grosso é o meu caralho!

– Nossa, que é isso? Virou bicho, agora? Parece que nunca aconteceu. Qual é, nunca dormiu com uma mulher com a cabeça em cima do seu braço, não?

– Já.

– Não parece.

– Já, sim. E com mina bem melhor que você. E sempre fico puto com essa merda.

Os olhos dela começam a entregar o emputecimento.

– Ah, é? E com essas minas melhores, você sempre age assim? Não sabia desse seu lado!

– Que lado? Cê nem me conhece.

– A Tami já me falou muito de você. Mas não tinha falado nada disso.

– Que Tami, porra?

– Não lembra da Tami? A Tamires? Também não interessa. Burra fui eu, mesmo. Vai, me leva pra casa.

Eu rio.

– Tenho cara de motorista, agora?

– Tem cara de filho da puta, isso sim. – Ela fala alto e me olha como se estivesse analisando algum bicho que está pensando em degolar. – É assim, é? Conseguiu o que queria e, agora, foda-se?

– Não fui só eu que conseguiu o que queria, né? Eu não gozei sozinho aqui.

Ela respira fundo. Esfrega a testa e recupera um pouco de paciência.

– Tá. Tudo bem. Foi bacana. Olha, por que a gente não se acalma e conversa direito? A gente ainda tá meio dormindo.

Não acredito…

A filha da puta ainda está tentando reconciliar. Deve estar com esperança de que a gente possa se entender, pedir desculpas, sair de mãozinhas dadas. Esse é um efeito colateral de comer a mina bem comido. Pega no pé.

– Eu tô bem acordado. Meu braço é que não. Não vou pegar carro nenhum. Não assim. Olha aqui – vasculho a calça e puxo minha carteira. Jogo uma nota de cinquenta no colo dela. – Pega um táxi.

Ela se levanta. A nota cai na cama. Pronto. Agora, finalmente, está mordida.

– Táxi? Você vai me mandar embora de táxi às… – confere o relógio – três da manhã?

– E vai como? De ônibus? Metrô? A essa hora, não tem. Táxi tem de monte. Pede um aí no aplicativo do celular – estico o pescoço para conferir. O aparelho dela está no chão, sobre suas roupas, ao lado da bolsa. É um smartphone de uns dois ou três anos. Já deve até estar fora de linha.

Ela rosna, baixinho:

– Que filho da…

Ela respira mais fundo ainda. Coloca as mãos na cintura, joga a cabeça pra trás. Os peitinhos balançam. Está discutindo comigo só de calcinha. Pior. Ela nem se ligou que a calcinha está ao contrário. Porra! É um fio dental! Essas merdas já devem incomodar quando a mulherada enfia certo. Ao contrário, então…

Ela me olha como se eu fosse, sei lá, um caso perdido. Uma criança para se tolerar. Apanha o celular, fica mexendo na tela. Eu apanho o meu. Aciono a câmera, para fazer umas fotos sem que ela saiba. Corpinho desses merece registro. Antes que eu consiga dar o clique, ela me interrompe:

– Qual é o sinal do wi-fi? Esse Lucifuge?

Disfarço bem o susto. Pensei que ela tinha se ligado da foto.

– Deve ser do vizinho – respondo. – Não tem wi-fi aqui.

– Não tem wi-fi?

– Não, cacete. Já não falei?

– Você não disse que faz trabalho da faculdade aqui? Como faz sem internet?

Quando eu falei isso pra ela? Deve ter sido no carro. Essa é a merda de não prestar atenção à conversa. Acabo falando merda.

Foda-se! Por que ela acha que merece tanta satisfação? E daí que, em algum momento, eu falei que fazia trabalho da facul aqui? Ela preferiria que eu dissesse o quê? Que “só uso o apê pra trepar e coçar o saco”?

– Tinha internet – respondo. – Troquei de operadora. Vão instalar a nova só semana que vem. Tô sem sinal de wi-fi – E isso tudo é verdade. – Mas o que você tanto quer com essa porra de wi-fi?

Ela me fuzila. Dá pra ver a vontade de me xingar entalando na garganta. Explica, mas tão baixinho que quase não entendo:

– Quê? – exclamo.

– Eu falei que não tenho internet no celular – repete. Desta vez, num volume que consigo ouvir. – Não consigo chamar táxi por aplicativo nenhum.

Eu rio e falo, tudo ao mesmo tempo:

– Caralho! Pobre é uma merda, mesmo.

Acho que, finalmente, toquei alguma ferida. Ela fala bem mais alto, agora:

– Quer saber? Foda-se! Eu me viro.

Começa a se vestir. Esquece de desvirar a calcinha. Com algum esforço, controlo a risada:

– Deixa eu chamar, então, porra.

Ela não responde. Coloca a minissaia, o sutiã e começa a vestir a camisa. Insisto:

–Vai fazer o quê? Ficar andando na rua? Vestida assim?

Ela para o que está fazendo e olha para mim com raiva:

– Vestida, como?

– Assim, mostrando as pernas, a bunda. Parece chamariz de tarado, andando por aí desse jeito. Deixa eu chamar o táxi.

– Não acredito que ouvi isso.

– Quê?

– Deixa eu te perguntar uma coisa: Se eu sair agora, procurando um táxi e for estuprada aí na rua, a culpa será minha? É isso que você está falando?

– Vestida assim…

– Assim, como? – ela grita.

– Como puta! – eu respondo, no mesmo volume.

Ela se cala. Olha para mim como se eu fosse um bicho de outro planeta. Arremata a arrumação com uma passada de mão no cabelo, só para colocar no lugar. Está muito puta da vida.

– É assim, né? Agora eu entendi. Sou muito burra mesmo. Como é que fui me meter com um merda como você?

Agora, foi ela que tocou alguma ferida minha. Só não sei qual. O sangue sobe, mas fico na minha. Por isso é bom ter treino de arte marcial. A gente aprende a segurar a raiva para não fazer besteira. Pelo menos, na maioria das vezes.

– Agora, só falta você dizer – ela continua a falar, a voz está bem azeda – que se uma mulher não quer ser tratada como puta, não deve se vestir como uma.

– Vai dizer que não é assim? – respondo. E, pra completar, estendo a mão com o dinheiro que resgato dos lençóis.

Ela ignora. Recolhe a bolsa do chão, olha bem pra minha cara e:

– Vai tomar no seu cu!

Sai batendo a porta. Nem passou pelo banheiro. Saiu do jeito que acordou. A calcinha ao contrário, cabelo desarrumado, cara amassada.

Vou até a porta passar a chave, depois deito de novo. Repasso a imagem dela na cabeça. É bem gostosinha, mesmo. Merece repeteco. É só saber como falar. Já repesquei mina com quem tive treta muito pior.

O braço ainda formiga um pouco, mas já vai passar.

Vai passar.

Na memória, passa. Tudo passa.

Eu durmo.

Sete horas!

A porra do despertador do celular não funcionou. Por quê? Confiro. Eu tinha esquecido de ligar! Tenho que chegar em casa em meia hora. Prometi levar mamãe lá para Santos, para conversar com um médico.

Vai dar. Sábado tem menos trânsito. Mas vou continuar sem banho. Certeza que estou cheirando a foda. Ainda bem que mamãe já mexeu tanto no nariz que não deve nem ter mais olfato.

Enfio a roupa correndo e saio.

Tem mesmo poucos carros na rua, mas como tem braço! Vou ficando puto com a moleza da galera. Radial já está meio embaçada. Mais do que o normal para um sábado de manhã. Não sei por que, cismo de pegar o caminho mais longo, passando pela República e indo para a Augusta. Porra, estou muito distraído. Não dá para virar à esquerda na Paulista, para quem vem da Augusta, então entro na Angélica para fazer o retorno. O tempo todo, compartilhando o asfalto com uma caralhada de zé ruela, que está só passeando. Porra, a essa hora da manhã? De todos, os ciclistas são os piores. Só servem pra foder ainda mais o trânsito. Menos essa mina de bermuda verde. Que rabo. Até desacelero, só pra conferir. E olha esses peitos. Pronto, já mudei de opinião sobre as ciclistas.

Passo e dou um toquinho na buzina. Ela faz que não é com ela. Estou com um olho no retrovisor e outro no semáforo. Fechado! Meto o pé no freio. O pneu canta. Quase bato num Celta que parou na minha frente. Tasco a mão na buzina. A mulher que está no banco do passageiro olha pra trás e comenta alguma coisa. O motorista balança a cabeça. Corno. Pra que esse filho da puta parou? O vermelho tinha acabado de acender. Tudo vazio. Dava pra atravessar, eu e ele.

Estamos no cruzamento com a Augusta. Fico acelerando, só pra irritar. Dou uma ré, pra me afastar, torço o volante. Quando acende o verde, disparo pela esquerda, com a mão na buzina Desço o pé no acelerador.  Perto da Peixoto Gomide, dá para ver o sinal de pedestres ficando vermelho. O sinal para quem está na Paulista já vai abrir.  Acelero e fico na esquerda. O Verde acende um segundo antes de eu cruzar a faixa. Tiro uma fina de um Corsa que está atravessando. O filho da puta estava aproveitando o amarelo. A merda é que ele acaba escondendo um ciclista que também está atravessando a Paulista. No susto, viro o volante com tudo e freio. O estômago fica leve, a virilha parece que vai desmanchar.

Não… Essa memória não!

Mas não consigo evitar.

Um barulho vem de debaixo do carro, junto com um tranco. Giro o volante de novo, para o ouro lado. Sinto a inércia brincando comigo e a gravidade parando de fazer sentido. Tomo uma pancada, mas não sei de onde. Fecho os olhos. O mundo vira um borrão esquisito. O volante escapa da minha mão. Eu tento recuperar, mas fico só apanhando o nada. Não estou mais dentro do carro. Perco a noção do corpo. O mundo todo perdeu aderência. O que é isso aqui em cima? É o chão que vem e me acerta bem na cabeç…

Volto lá para o começo da memória.

Minhas coxas tremem.

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