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  • walter tierno

Primeiro capítulo de Anjo na Gaiola

Como prometido no Facebook, aqui vai um gostinho de meu novo livro, Anjo na Gaiola.

Capítulo 1 Menina, sábado, 9 de abril Ontem eu prendi um anjo na gaiola da vovó. É de latão, cobre e marfim. A gaiola, não o anjo. As grades têm detalhes em forma de parreiras. No topo, folhas e cachos de uvas. A base é cheia de arabescos e mais uvas e folhas. Vovó me deu no meu décimo segundo aniversário. Disse que estava na família desde mil oitocentos e sei lá quanto, e que estava vazia há mais ou menos uns cinquenta anos. Vovó, velhinha, com a gaiola nas mãos, os dedos tortos: — Eu ainda era moça quando soltamos o último canário que morou aqui. Era do meu pai. Eu brigava muito com ele por causa dessa mania besta de prender passarinho. Ele morreu num dia, no outro eu abri a portinhola. O bicho quase não voava. Ficou no quintal. Tinha um canto triste, o pobrezinho. Era bonito, isso era. Mas triste. Vovó tinha uma voz macia. Era alta, mas não parecia, porque a coluna era curva. O pescoço era fino e a cabeça não tremia muito, mal dava pra perceber, a não ser que você olhasse com muita atenção. Vovó, com os olhos quase afogados. Lacrimejavam o tempo todo: — Eu já era casada quando soltei o canário. Todo dia, teu avô ia até o quintal com um punhado de semente de linhaça e o passarinho vinha posar no ombro dele para comer. Depois, cantava. Vovó, suspirando e sorrindo: — Era lindo de se ver… Sabe… Teu avô era muito bonito. Não conheci o vovô, mas vi umas fotos amareladas. Era bonito, mesmo. Vovó também. Tinha cabelos negros e corpo elegante. Magrinha, magrinha. Já me disseram que pareço com ela. Espero que seja verdade, porque já estou com quase quinze e nem sinal daquela elegância. Gostaria de ter pensado em perguntar a ela com que idade ficou bonita. Agora não dá mais. Vovó morreu um mês depois de me dar a gaiola. Vovó: — Gaiola é uma coisa feia, com um uso mais feio ainda. Mas esta aqui é tão bem feita, tão caprichada, que acabou ficando bonita… Depois que soltei o passarinho, lavei, tirei a ferrugem, arrumei as grades tortas, e agora ela não prende mais bicho nenhum, só decora a casa; E serve de lembrança. Eu: — Lembrança de quê? Vovó, com um sorriso triste: — De tudo. Do teu vô, do canário, de mim. Essa gaiola só serve pra prender isso: lembrança. Se cuidar dela direitinho, eu também vou caber aí dentro, quando virar só uma lembrança. Eu a coloquei no meu quarto. A gaiola, não a vovó. Pedi ajuda para o meu pai. Ele parafusou um suporte na parede. Comprou numa loja de material para construção. Disse isso e comentou a pechincha que tinha sido enquanto furava a parede para martelar a bucha e enfiar o parafuso. Pendurou a gaiola antes de sair e quase sorriu quando eu agradeci. Nunca vi as lembranças que a vovó dizia ter ali. E nunca coloquei nada dentro. Sempre esteve vazia. Até hoje de madrugada. Eu tinha enchido a barriga com guaraná e pipoca, e esvaziado a cabeça com dois episódios do Flash, que assisti no note. Nunca tinha visto, mas a Kátia gosta e já me encheu tanto, que resolvi dar uma chance. Achei as histórias meio chatas e o ator principal bonitinho. E só. Assisti por pura inércia. Estava começando o terceiro quando as pálpebras pesaram, o pescoço amoleceu e quase bati a testa no teclado. Entrei no pijama, mergulhei na cama e foi só deitar a cabeça no travesseiro para o sono passar. Teimei e esperei. Ganhei sei lá quanto tempo — pareceu uma eternidade — de olhos estatelados, fitando o escuro. Estava quase derrotando a insônia quando ouvi o barulho. Foi no quintal, perto da minha janela. Um tuf seco. Calcei os chinelos e saí do quarto sem acender a luz. Papai estava dormindo, embalado por um cansaço de fazer não sei o quê, e por cerveja. Papai bebe bastante. Não foi sempre assim. Era só uma garrafa por semana, mas isso foi antes do câncer da mamãe. Ela morreu quando eu tinha dez. Não lembro como era seu rosto. Por que não lembro como era seu rosto? Fui para o quintal pela porta da cozinha. Achei um buraco no canteiro de terra. Quando mamãe estava viva, cuidava dele. Tinha rosas e azaleias, uns pés de morango e até uma videira. Hoje, tem um monte de folhas murchas e plantas agonizantes sobre a terra exposta e abandonada. Dentro do buraco, uma luzinha amarelada, pulsante, e um corpinho nu, com asinhas de penas brancas. Um anjo. Um bem pequeno. Estava desacordado. Peguei com cuidado e levei para o quarto. Coloquei em cima de uma flanela, sobre a escrivaninha, e o limpei com algodão e álcool gel. Vigiei até ele acordar. Tomou um susto, abraçou as perninhas e ficou me olhando, com uma tremedeira enorme. Achei que fosse medo de ser devorado. De repente, levantou, bateu asas e desandou a voar pelo quarto. Deu rasante pela escrivaninha. Bateu no porta-canetas e esbarrou no diário. As canetas se espalharam, minha monstrinha-marinha de biscuit quase foi pro chão. Subiu um pouco mais e derrubou cinco livros da prateleira. Passou por cima da minha cama, quase se arrebentou na cabeceira. Só foi parar quando deu de cara contra o espelho da porta do guarda-roupa. Não sei como não se quebrou todo ou o espelho. Caiu no chão, numa posição ridícula, as asinhas tortas. Pensei que tinha morrido, mas seu peito se mexia e não tinha ferimento. Só estava apagado, mesmo. Eu o coloquei na gaiola da vovó. Não sei por que fiz isso. Parecia o mais certo. Deveria tê-lo acordado, perguntado de onde vinha, o que queria. Mas não fiz nada disso. Só deitei de novo. Dessa vez, apaguei logo de cara, sem insônia.

•••

Quando amanheceu, acordei de repente, chupando ar, como se tivesse me salvado de um afogamento. Pulei da cama. Teria sido sonho? Não foi. Não é. O anjo está aqui, dentro da gaiola. Mudou de posição e continua dormindo. De barriga para cima, o peito subindo e descendo, acompanhado de um chiadinho agudo. Deve ser assim que os anjos roncam. Cubro a gaiola com o lençol que ganhei da vovó, quando fiz onze anos. Vovó, entregando: — Guarde direitinho, está bem? É todo vermelho, com exceção de uma margarida bordada enorme, bem no centro. Vovó tinha um acordo com o papai, desde quando ele era criança. Qualquer coisa debaixo daquele lençol não era para ele mexer. O pacto ainda valia quando ela me deu, com um sorriso de cúmplice. Disse que era para eu guardar meus segredos. A lei ainda vale. Se quero que o papai não toque em alguma coisa, é só cobrir com o lençol da margarida. Ele não mexe mesmo. Não sei a história desse acordo, nenhum deles quis me contar, por mais que eu perguntasse. Confiro a hora. É cedo e o sol já nasceu. Dormi pouco, mas não me sinto cansada. Deve ter sido um sono pequeno e muito bom. Agora estou na cozinha e dá para ouvir o ronco do meu pai que vem lá do quarto. Parece um exército de elefantes cantando lá dentro. Não vai levantar tão cedo. Nunca levanta, de sábado. Fervo leite e passo café. O pãozinho está duro. Lambuzo com manteiga e esquento no micro-ondas para amaciar um pouco. Não como tudo, guardo um pedaço para o anjo. Vou ao banheiro e faço o que tenho que fazer com pressa, tomo um banho rápido, resgato o pedaço de pão do forno e volto para o meu quarto. A sinfonia dos elefantes continua firme e forte. Deve dar para ouvir lá da rua, que é para onde dá a janela do quarto do meu pai. Nossa casa é velha. Uns quarenta anos, eu acho. Quando papai comprou, minha mãe estava grávida. De mim, claro. Não tenho irmão, nem irmã. Antes, eles moravam num cômodo no fundo do quintal da vovó. A casa é térrea. A grade da frente é baixa e precisa de pintura. A última cor que ostentou foi cinza. Uma vaga para carro logo depois do portão, ao lado do canteiro. Ociosa, porque meu pai odeia dirigir e diz que carro é um gasto desnecessário. Na verdade, dizia. Hoje em dia, mal abre a boca para dar opinião sobre qualquer coisa. A vaga seria maior, mas minha mãe pediu para dividir com uma porta envidraçada e formar uma edícula, que ela usou para plantar flores e samambaias em vasos pendurados pelas paredes. Papai nunca teve interesse, paciência ou o que quer que seja necessário para cuidar de plantas. Deixou tudo morrer e jogou fora. Hoje, a edícula é só mais um espaço tão vazio quanto a garagem. Nome engraçado esse. Edícula. Não sei se está certo, se esse é o nome que se dá a esse tipo de coisa. Minha mãe chamava assim, meu pai também. A Kátia, quando viu, disse que era uma estufa. Falei que não, que estufas têm teto de vidro. Não sei se foi um argumento válido, eu só queria defender o nome que meus pais usavam. Tem uma porta que dá para a sala e outra para o quintal. Entrando na sala, para a esquerda fica o quarto principal. Era do meu pai e da mamãe, hoje só ele ronca lá. Para a direita, uma porta sanfonada se abre para a cozinha. Ao lado da pia, uma saída para o quintal. Passando pela mesa — que é bem velha, daquelas que abrem e você encaixa um pedaço no meio para ficar mais comprida —, um corredor leva para o banheiro principal, à direita, e ao meu quarto, em frente. Lá no fundo fica a lavanderia e mais um banheiro pequeno. Só dá para chegar passando pelo quintal. Meu quarto não é grande. É preciso. Preciso de precisão, não de necessidade. As coisas têm o tamanho certo e se encaixam. Capricho da mamãe. Só a gaiola é que fica deslocada, ao pé da cama, sustentada por um pedestal de ferro repintado de verde. Desconfio que mamãe, quando mandou montarem o quarto, nunca imaginou que, um dia, vovó cismaria em me consolar por sua morte com esse trambolho. Também não deve ter imaginado que, um dia, eu colocaria um anjo dentro. Ou que esqueceria como era o rosto da minha mãe. Passo muito tempo em meu quarto. Muito mesmo. Este final de semana não será diferente. Tranco a porta e tiro o lençol de cima da gaiola. Encontro os olhos do anjo. Está sentado, os bracinhos cruzados, cara de bravo. Não digo nada. Ele se levanta, coloca as mãos na cintura e vem para perto da grade. Seu rosto parece um pêssego, tanto no formato quanto na textura da pele. Os olhos são grandes e brilhantes, o crânio largo e redondo, queixo fino, delicado. A boca é pequena e os lábios carnudos, úmidos, avermelhados. Os cabelos negros, lisos e compridos esparramam-se sobre os ombros pequenos. Os membros são finos, o tronco magro. Digo anjo, masculino, por puro hábito, porque não sei dizer qual o gênero desta criaturinha. Onde deveria ter um órgão sexual, tem só um campo liso. Também não tem umbigo. Eu, levantando o prato à altura da gaiola: — Tá com fome? Trouxe pão. O anjo não vê o pão. Seus olhos estão grudados nos meus. Eu, sem baixar o prato: — Você é menino ou menina? Ele suspira e olha para o lado, balançando a cabeça. Suas asas eriçam levemente. Anjo, depois de estalar a língua: — Nem uma coisa nem outra. Sua voz é linda, musical, ressonante. Perfeita. Estremeço. E esqueço o que acabei de perguntar. Fico não sei quanto tempo parada, como uma idiota, olhando para a gaiola. É o som de uma nova estalada de língua que me desperta. Respiro fundo, coço a cabeça e coloco o prato com pão sobre a escrivaninha. Quero perguntar tanta coisa ao anjinho engaiolado, mas as dúvidas agora parecem lubrificadas e escorregam para longe da minha cabeça. Eu, idiota: — É que você parece uma menina. Anjo, irritado: — Mas não sou. E não sou menino, também. Satisfeita? Espero que sim. Próxima pergunta, por favor. Dou uma risada baixa, aguda, nervosa, cheia de vergonha. Eu, ainda idiota: — Pensei que anjo fosse maior. Ele bufa e se senta no fundo da gaiola, pernas cruzadas e cotovelos apoiados sobre as coxas. Balança a cabeça, inconformado. Faz cara de quem está diante de uma ignorante sem salvação. Anjo: — Tem anjo de tudo quanto é tamanho. Tem grande, médio, pequeno. Tem anjo maior que montanha e anjo menor que eu. Eu me sento sobre a cama. De onde estou, só dá pra ver a cabeça e um pedacinho das asas. Eu: — Que aconteceu? Anjo: — Como assim? Eu: — Por que você estava no meu quintal? Anjo, como se estivesse dizendo a coisa mais lógica do mundo: — Cai do céu, oras! Eu, confusa: — Caiu? Como? Anjo, encabulado: — Escorreguei. Eu, de olhos arregalados, levantando: — Escorregou? Anjo, irritado: — É, escorreguei. Estava te vigiando, estiquei muito o pescoço, a mão escorregou na beirada da nuvem, caí. Satisfeita? Eu: — Por que você estava me vigiando? Anjo: — Porque sou teu anjo da guarda! Por que mais estaria te vigiando? Chego mais perto da gaiola. Eu, muito confusa: — E o que eu faço, agora? Anjo: — Você poderia começar sendo simpática e perguntando se eu não me machuquei quando caí. Afinal, é uma distância grande e eu cheguei a pegar fogo na entrada da atmosfera. Eu: — Desculpa, desculpa! Como… Como você está? Você se machucou? Precisa ir para um hospital? Veterinário? Tenho que te levar para um veterinário? Anjo: — VETERINÁRIO? Eu, um caso perdido: — Desculpa! Desculpa! Sento-me novamente e escondo o rosto nas mãos. Sinto o peito contrair, a barriga convulsionar e tento segurar, mas o riso acaba escapando e sai do controle. Rio. Rio sem saber bem o porquê. Foi engraçado? Foi ofensivo? Estou com vergonha, medo ou felicidade? Rio até o ar faltar e as lágrimas me cegarem. Quando consigo me controlar, vejo o rosto torcido do anjo, me fitando lá da gaiola. Anjo, amargo: — Que bom que te divirto. Eu, mais leve, graças ao ataque de riso (acho que estava precisando): — Desculpa. Foi… Eu… Desculpa. Eu não sei por que eu ri. Acho que estou meio… Sei lá… O que você quer? Quer que eu te solte pra você poder voltar pro céu? Anjo, levantando e respondendo rapidamente: — NÃO! Eu, surpresa: — Por que não? Anjo, tentando disfarçar a vergonha: — Eu não posso voltar. Eu: — Não pode voltar? Por que isso? Quebrou as asas? Anjo: — Não. É a regra. Anjo que cai não volta. Eu: — E o que você vai fazer, então? Anjo, com voz triste: — Se você me soltar, eu vou tentar voltar para o céu. É o que a minha natureza manda. Só que eu não vou conseguir e vou cair mais. Vou parar lá… você sabe… Eu: — Onde? Anjo, revirando os olhos: — Lá. Eu: — Lá onde? Anjo, apontando para baixo: — LÁ! Eu, finalmente entendendo: — Ah, tá… Vou até a gaiola e começo a mexer na trava da portinha. Anjo, gritando, a voz sem melodia, aguda: — NÃO! O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO? Eu, paralisada: — Ia te soltar… Anjo, virando a cabeça e me fitando: — Você tem algum problema? É burra ou coisa do tipo? Não escutou o que eu falei? Se você me soltar, eu vou tentar ir pro céu e vou cair pro inferno. Eu, hesitante: — Eu entendi… Anjo, com voz rasgada, uma mistura de giz arranhando lousa com rosnado de gato. Do tipo que provoca um arrepio que sobe do fim da espinha até a nuca. Os olhos faiscando, vermelhos: — SE ENTENDEU, ENTÃO POR QUE ESTÁ ABRINDO A DROGA DA PORTA DA GAIOLA? Não consigo responder. Meu coração está batendo muito forte. Anjo, a voz normal: — Você quer me ferrar, é? Não é para me deixar sair. Eu, com voz trêmula, o coração chega a doer, de tão acelerado: — Você quer ficar preso dentro da gaiola? A janela e a porta estão fechadas. Não vou deixar você sair do quarto. Não pode nem isso? Anjo, tentando retomar a calma: — Eu vou acabar dando um jeito de sair. É mais forte que eu. Se sair desta gaiola, sou capaz de quebrar a janela. Vou tentar subir, mas as asas vão pegar fogo e eu vou cair. Já vi acontecer. Não é legal. Aqui dentro, eu estou tranquilo. Deve ter alguma coisa com essa gaiola, alguma energia residual, sei lá. Eu: — Então, você vai ficar ai dentro? Tipo… pra sempre? Anjo: — Melhor do que ir pra… lá. Tem ideia de como é? Eu: — Não. Anjo: — Lógico que não! Nem vai querer saber. É uma grande porcaria. Tem gente queimando, gritando, chorando. Tem fogo pra todo lado, uns cachorros sem pelo e uns gatos com mãos de macaco, uns jacarés com pernas de galinha e um monte de piranhas com pés descalços. Ficamos em silêncio alguns segundos. Eu: — Piranhas com pés descalços? Anjo, ignorando: — Posso comer o pão, agora? Passo um pedacinho entre as grades. Ele come. Eu, sentando-me novamente: — Então… Como ficamos? Você vai morar aqui, agora? Na gaiola? Anjo, com a boca cheia: — É o jeito. Não vejo alternativa. E como não posso mais ser seu anjo da guarda, serei seu conselheiro. Eu: — Conselheiro? Anjo: — É… Conselheiro. Não sabe o que é um conselheiro? É alguém que te dá conselhos. Eu: — Eu sei o que é um conselheiro… Anjo: — Sabe? Pois não parece. Enfim… Eu fico aqui te aconselhando. Pode acreditar, você vai precisar. Eu: — Vou precisar? Por quê? Antes que ele responda, ouço os passos do meu pai. Jogo o lençol sobre a gaiola. Ele bate à minha porta. Meu pai, abrindo a porta e resmungando com voz pigarrenta: — Já é quase sete. Vai se atrasar pra escola. Eu, torcendo para que ele não perceba minha agitação: — Já vou… — Uma lembrança aterrissa na cabeça: — Hoje não tem aula, pai. É sábado. Meu pai, levantando as sobrancelhas, como se estivesse percebendo algo engraçado, mas não o suficiente para rir: — Ah… Ele corre os olhos pelo quarto e encontra o lençol da margarida. Seu rosto amassado não consegue disfarçar a contrariedade. Seus olhos brilham desconfiança e curiosidade. Quer dizer algo, provavelmente, perguntar o que é tão importante que precisa ser escondido sob o lençol da margarida. Mas o acordo que fez com minha vó ainda está valendo. O lençol é sagrado. Fecha a porta e ouço seus chinelos arrastarem até a cozinha. Eu, para o anjo, enquanto tiro o lençol: — Você precisa de alguma coisa? Água, comida? Anjo: — Não preciso de nada. Eu não como, não bebo, nem preciso de nada. Eu: — Mas você comeu um pedaço do pão… Anjo: — Eu POSSO comer. Não quer dizer que precise. O que eu preciso mesmo é dormir. Cair do céu dá um sono danado. Sem dizer mais nada, deita-se e eu cubro a gaiola com o lençol, de novo.

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