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  • walter tierno

Sou tão simples assim…?

Eu vou fazer um comentário não solicitado e rápido sobre este comercial do Boticário.

Não, eu não fiquei revoltado, não vejo motivo para clamar revolta, para criticar ferozmente, nem para nada do tipo. Sei que tem gente até pedindo para tirar do ar! Exagero, não? Admito que não é das melhores peças publicitárias no ar, mas ele até que serve a um propósito inusitado: avaliar/problematizar algumas coisas, algumas questões que estão tão enraizadas em nossa sociedade e que nem percebemos.

Afinal, a primeira pergunta que me fiz ao assistir foi: qual foi o objetivo da empetecação das mulheres para a assinatura do divórcio? Fazer os homens pensarem: “Olha só o que eu estou perdendo? Como não tinha percebido isso? Ela pode ser uma mulher diferente!”

Que estranho colocar a mulher nessa perspectiva simples, de objeto decorativo que tem um cisne escondido, que pode vir à tona graças a uma maquiagem e cabelos bem feitinhos. Mas dizemos isso o tempo todo, sem nem percebemos, não é? Que a mulher tem a obrigação de se tornar diferentemente interessante o tempo todo. Que cobrança fazemos não? E o engraçado é a cobrança inconsciente que fazemos para… cobrarmos isso!

As mulheres me parecem reduzidas a um “empoderamento” produzido pela forma como os homens às vêem. E o grande problema, a meu ver, não é que isso esteja sendo reforçado por um tolo comercial. Na verdade, o preocupante é que esse tolo comercial retrata muito bem o discurso que fazemos diariamente. Na mídia, no dia-a-dia, para nossas filhas, nossas amigas, desconhecidas… todas. É a cobrança diária do “seja bonita, seja vaidosa, mulher é isso…” Claro que, principalmente no caso do comercial, o objetivo básico é fazer vender cosméticos. Mas não é tão simples, é? E a cobrança descarada pela estética que se faz às pessoas gordas? Pior quando é disfarçada pelo cínico: “é pela sua saúde…”. Na imensa maioria das vezes, é pura mentira. Não é pela saúde porra nenhuma. Queremos ver pessoas dentro de padrões de beleza que nem sabemos de onde vêem…

Mas não pretendo me aprofundar demais nessas questões. Sou homem e, portanto, acho justo me ater a questionamento e problematização do ponto de vista masculino.

No vídeo, as expressões de paspalhos dos caras foram a representação de uma vingança perpetrada pelas ex esposas. Observem como é retratado o divórcio. Provocado pelos homens, aceito pelas mulheres e postos em prática por motivos idiotas. E o comercial, infelizmente, faz uma representação relevante. Não pela veracidade em si, mas pelo senso comum que temos em relação ao assunto. Pensamos sempre isso, não? Que o homem vê a separação como o momento de “vou me livrar dessa mulher da qual estou cansado e vou ficar livre!” E fica muito claro pelas motivações dadas pelos homens no vídeo. O “costume”. É o que dizemos que acontece, não? Que os caras estão cansados e se libertando. Milhares de piadas e shows de stand up repetem isso. Que o homem é feliz solteiro e miserável casado. E que a mulher é uma fracassada, quando solteira e megera quando casada. Nisso, o comercial é verdadeiro, como eu disse, não do fato, mas de como nos enxergamos.

E é justamente isso que eu acho triste.

Vou falar como homem e de uma forma pessoal: Não me vejo como um cara simples e superficial como esse comercial retrata. Divórcio, para mim, seria algo extremamente traumático, triste. Doloroso e deprimente. “Costume”, a meu ver, seria um motivo, no mínimo, leviano para enterrar uma relação. E tenho certeza de que muitos e muitos homens se sentiriam assim. E tenho certeza de que muitos homens que concordassem com essa visão simplista do casamento e do amor, nada mais estariam do que respondendo a um padrão imposto.

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